quinta-feira, 13 de maio de 2010

Cultura Islâmica I – Ciência

Idade Média: Império Islâmico.
Cultura Islâmica I – Ciência
"A tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir".

Com essa citação do profeta Maomé, podemos dar início à reflexão sobre a importância do conhecimento e da ciência para os muçulmanos.

Os muçulmanos antigos valorizavam o conhecimento, tanto que tratavam os sábios e eruditos com devotada reverência. Para o Islã, todas as coisas existentes são criações de Alá (o Deus único). Em decorrência disso, o estudo das coisas existentes permite ao fiel aprofundar seu conhecimento, aprimorando cada vez mais a sua percepção divina.

Grande parte dos governantes do Império Islâmico (séculos VII - XIII) buscou conservar os textos que iam encontrando nas regiões que conquistavam – com algumas trágicas exceções, sendo a mais memorável a destruição do que restava da Biblioteca de Alexandria. Nesse processo, estudiosos muçulmanos traduziram para o árabe antigas obras filosóficas, científicas, literárias e religiosas. Com o passar do tempo, a cultura islâmica foi se tornando fortemente sincrética, verdadeiro amálgama dos conhecimentos legados pelos povos antigos.

Textos árabes sobre conhecimentos antigos se difundiram entre os povos com os quais os muçulmanos travaram contato. Por meio dos textos em árabe, asiáticos, africanos e europeus puderam travar contato com conhecimentos dos antigos chineses, indianos, persas, babilônicos, egípcios e gregos.

Para os europeus da Baixa Idade Média, foi de grande importância o acesso às traduções e comentários, em árabe, de obras dos filósofos gregos Aristóteles e Platão. As obras desses filósofos gregos exerceram grande influência no pensamento escolástico e, posteriormente, no Renascimento Cultural europeu.

O Império Islâmico atingiu sua "Era de Ouro" (apogeu cultural) e sua máxima extensão territorial sob a Dinastia Abássida (750-1258). Os abássidas eram tidos como descendentes de um tio de Maomé chamado Abbas, e assumiram o poder do Império Islâmico, destronando a dinastia Omíada (651-750).

Os ábassidas mantiveram uma aliança, estabelecida pelos omíadas, entre profissionais persas e governantes árabes que ocupavam as terras a oeste da Pérsia. Com o passar do tempo, os abássidas acabaram por sincretizar as suas tradições árabes com as tradições persas. Eles transferiram a capital imperial de Damasco (na atual Síria) para Bagdá (no atual Iraque), cidade esta que se tornou ponto de encontro de vários sábios da região.

O brilhantismo cultural de Bagdá, enquanto capital do Império Abássida, era impressionante se comparado ao de outras grandes cidades do seu tempo. Foi nessa cidade que se desenvolveu o maior centro de estudo, pesquisa e difusão do conhecimento da época: a Casa de Sabedoria de Bagdá. Nas suas bibliotecas, reuniam-se obras que acabaram por influenciar a maior parte das ciências modernas, como: a Matemática, a Astronomia, a Medicina, a Biologia, a Filosofia, a Química, a Geografia, a História, a Sociologia, a Teologia, a Psicologia etc.

Os avanços técnicos e os debates científicos acabaram por diferenciar a ciência islâmica daquela que vinha sendo desenvolvida por outros povos. De acordo com o matemático e historiador marroquino Georges Ifrah, os estudiosos islâmicos foram grandes pioneiros, por haverem concebido uma Ciência Universal, ou seja, um ideal de internacionalização da ciência. Em sua ânsia por conhecimento, os estudiosos islâmicos romperam as fronteiras territoriais e culturais, difundindo conhecimentos entre os vários povos com quem travaram contato, enquanto também aprendiam com eles.

Em Bagdá, assim como em Córdoba e em Damasco, se encontravam grandes sábios não só do mundo islâmico, mas também de outras origens e crenças - zoroastristas, maniqueístas, judeus e cristãos ortodoxos. Nesse verdadeiro caldeirão cultural, muitos sábios islâmicos realizaram importantes obras de síntese, nas quais buscavam reunir todo o conhecimento que vinha sendo desenvolvido sobre determinado assunto. Esse anseio dos sábios muçulmanos em sintetizar todo o conhecimento que possuíam foi bastante inovador para a época. Tal anseio guarda algumas semelhanças com o ideal enciclopédico dos iluministas europeus, já no século XVIII, em aspectos como o universalismo, a racionalidade, a curiosidade e o confronto entre o tradicionalismo dos eruditos (juristas e teólogos) e o livre pensamento de místicos e filósofos.

Uma das obras de síntese mais importantes foi A Cura, escrita pelo persa Avicena, um médico dotado de erudição admirável. Avicena estabeleceu os conceitos de Alma e Infinito, e as relações entre o Corpo, a Vida e a Alma, desenvolvendo métodos terapêuticos que, mais tarde, revolucionariam a medicina ocidental, como a Musicoterapia.

Dentre as ciências desenvolvidas na Casa de Sabedoria de Bagdá, uma das mais importantes foi a Matemática. Os algarismos atualmente conhecidos como indo-arábicos (0, 1, 2, 3... 9) são, na verdade, derivações de algarismos criados pelos antigos hindus e difundidos na Ásia e na Europa por comerciantes e guerreiros oriundos do Império Islâmico. O próprio termo "algarismo" deriva do nome do matemático persa Al Khowarizmi, que trabalhou na Casa de Sabedoria de Bagdá. Em sua obra de síntese, chamada Sobre os Cálculos por Transposição e Redução, Al Khowarizmi estabeleceu os métodos básicos para se efetuar cálculos matemáticos com algarismos, sendo, por isso, considerado o pai da Álgebra. Aliás, o termo "álgebra" deriva de al jabr, que significa "redução".

Além da Matemática, a Química (do árabe, Al Kimiya) também deve grande parte de seus princípios básicos a muçulmanos como Geber (Abu Jabir), Alkindus (Al Kindi) e Rasis (Al Razi). Em suas obras, esses alquimistas descreveram métodos para se obter substâncias químicas que são utilizadas até hoje, como o mercúrio, o arsênico e o álcool etílico. Um dos muitos instrumentos de laboratório criados pelos alquimistas muçulmanos foi o alambique, utilizado no processo químico de destilação.

No século XIII, os mongóis invadiram várias regiões do Império Islâmico, pondo fim à unidade territorial do Islã. A Casa de Sabedoria de Bagdá foi destruída e, de acordo com a lenda, os livros da sua biblioteca foram arremessados no rio Tigre.