quarta-feira, 16 de outubro de 2013

República de origem confusa

República de origem confusa - A nossa primeira proclamação da república foi assinada durante o dia, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.
Na manhã de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca parou em frente ao quartel-general do império (na atual Avenida Presidente Vargas) e pediu para o vigia de plantão, que era seu sobrinho, abrir o portão. O comandante do quartel-general havia começado a trabalhar naquele dia: era o marechal Floriano Peixoto, que ganhou o apelido midiático de “esfinge” por causa do seu silêncio diante dos acontecimentos.
Dentro do quartel-general, o marechal Deodoro depôs o chefe do conselho de ministros, Visconde de Ouro Preto, que lá se encontrava acastelado - o clima estava tenso, devido a boatos sobre prisões de militares. Alguns dizem que Deodoro deu vivas à monarquia; outros dizem que ele deu vivas à república. Parte da oficialidade do Exército era republicana, por influência da filosofia positivista e, também, por se espelharem nos sistemas republicanos argentino e uruguaio. O único civil presente no golpe era Quintino Bocaiúva. Lopes Trovão alegou ter chegado atrasado por causa do bonde.
O ex-primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto utilizou a linha de telégrafo para avisar o imperador Pedro II, que relaxava em Petrópolis. Descuidado, o imperador falou para ninguém se afobar: o conselho de ministros se reuniria à noite, assim que ele descesse a serra até a capital, para escolher um novo primeiro-ministro... e a vida continuaria com dantes.
Enquanto as autoridades se recompunham, os soldados começaram a festejar a vitoriosa deposição do primeiro-ministro, bebendo e batucando nos botequins e quiosques do Campo de Santana (atual Praça da República). Animados, soldados e republicanos deram início a uma marcha ébria pelas ruas do centro.
Os republicanos, em palcos improvisados nas ruas do centro, pregavam contra o sistema monárquico. É nesse ínterim que Machado de Assis impede a destruição de um símbolo monárquico dentro da repartição onde trabalhava. Por causa desse gesto, o patriarca da literatura brasileira acabou legado à história (dos vencedores) como um “célebre monarquista”.
Em meio ao agito, eis que aparece José do Patrocínio, o caso mais emblemático do republicano “de última hora”, que acordou monarquista e foi dormir republicano. Percebendo a agitação popular, o astuto paladino dos abolicionistas juntou-se aos republicanos para ocupar a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, onde ele era vereador.
José do Patrocínio passou então a redigir a proclamação da república, que seria aprovada pelos vereadores, sob forte pressão dos republicanos. Para fazer valer sua proclamação, ele alegou possuir jurisdição para legislar sobre todo o território nacional. De fato, o município do Rio de Janeiro era a “Corte” (isto é, a capital do império), condição esta que, no contexto monárquico da época, pressupunha que suas leis deveriam ser aplicadas em todo o reino brasileiro. Posteriormente, José do Patrocínio explicou que sempre fora republicano, apesar de preferir uma monarquia "popular" a uma república oligárquica.
Apesar do ineditismo da ação, não foi essa proclamação improvisada pelos vereadores cariocas que motivou o gaúcho Deodoro da Fonseca a assinar, à noite, a sua proclamação provisória da república. O grande problema para o último marechal da Guerra do Paraguai era o boato de que Silveira Martins, seu grande inimigo no Rio Grande do Sul, seria indicado como primeiro-ministro pelo imperador.
Aí já era demais pro velho marechal. Com o apoio de ricos cafeicultores e de oficiais militares, Deodoro decidiu “liderar” o pontapé inicial desta república. Tarde da noite, um pequeno grupo redigiu, na casa do marechal, a declaração da república provisória do Brasil.
Mal sabiam seus patriarcas que esta república permaneceria “provisória” até sua oficialização no plebiscito de 1993. 


segunda-feira, 18 de março de 2013

Tupy, o Som-de-Pé


  
As etnias indígenas brasileiras podem ser divididas, de acordo com conceitos etnolinguísticos, em tupis, gês, caribes e aruaques. No Brasil atual, os maiores grupos são o tupi e o gê.
A etnia tupi é a mais estudada pelos primeiros cronistas europeus que vieram ao Brasil, mesmo porque a maioria dos povos do litoral, com quem os europeus travavam contato, eram tupis.
Atualmente, escritores de origem indígena têm buscado relatar a visão que possuem da própria história. Um desses escritores é Kaka Werá Jecupé, brasileiro da origem tapuia (nome que os tupis davam aos gês). Em seus livros, Jecupé apresenta conhecimentos obtidos após um longo processo de iniciação nas tradições sacerdotais tupis-guaranis (um subgrupo da etnia tupi).
Partindo da própria definição do que é “índio”, Jecupé expressa a importância do som e do silêncio na cultura indígena:
(…) O nome índio veio trazido pelos ventos dos mares do século XVI, mas o espírito “índio” habitava o Brasil antes mesmo de o tempo existir e se estendeu pelas Américas. (…) Para o índio, toda palavra possui espírito. Um nome é uma alma provida de assento, diz-se na língua ayvu [língua preservada pela tradição oral, utilizada para se referir aos assuntos da alma]. É uma vida entoada em uma forma. Vida é o espírito em movimento. Espírito, para o índio, é silêncio e som. O silêncio-som possui um ritmo, um tom, cujo corpo é a cor. Quando o espírito é entonado, torna-se, passa a ser, ou seja, possui um tom.
(…) O índio mais antigo dessa terra hoje chamada Brasil se autodenomina Tupy, que na língua sagrada, o abanhaenga, significa tu = som, barulho; e py = pé, assento, ou seja, som-de-pé, o som-assentado, o entonado. De modo que índio é uma qualidade de espírito posta em harmonia de forma. (JECUPÉ, 1998, p. 13)
Desse modo, a tradição tupi considera “silêncio” e “som” como dois elementos indissociáveis. Por mais paradoxal que pareça ao raciocínio lógico, o conceito de “silêncio-som”, ao conjugar duas palavras que consideramos antônimas, concorda com estudos contemporâneos da musicologia e semiótica:
(…) Não há som sem pausa. O tímpano auditivo entraria em espasmo. O som é presença e ausência, e está, por menos que isso pareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quanto sons no som (…). O mundo se apresenta suficientemente espaçado (quanto mais nos aproximamos de suas texturas mínimas) para estar sempre vazado de vazios, e concreto de sobra para nunca deixar de provocar barulho. (WISNIK, 2001, p. 18-19)
Jecupé conceitua o ayvu como sendo a “sabedoria da alma” e o “corpo-som do Ser”. Por deterem a “sabedoria da alma”, os Tubuguaçu (ancestrais dos tupis) seriam capazes de “afinar” o corpo físico com a mente e o espírito.
Os Tubuguaçu  entendem o espírito como música, uma fala sagrada (nê-en-porã) que se expressa no corpo; e este, por sua vez, é flauta (U'mbaú), veículo por onde flui o canto que expressa o Avá (o ser-luz-som-música), que tem sua morada no coração.
Essa flauta é feita da urdidura de quatro angás-mirins (pequenas almas), que fazem parte dos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Eles precisam estar afinados para melhor expressar o Avá, que é a porção-luz que sustenta o corpo-ser, que, para os ancestrais, é o fogo sagrado que move os guerreiros, dando-lhes vitalidade, capacidade criativa e realizadora. (JECUPÉ, 1998, p. 24)
Jecupé explica a importância do Jeroky (palavra que significa “dança”) como forma de realizar a “afinação” do corpo com o Universo. Como o tupy é um “som-de-pé”, Jecupé utiliza a expressão “dançar os tons” para referir-se à entoação dos sete tons essenciais do espírito. Seis desses tons correspondem às vogais ÿ (“u” gutural), u, o, a, e, i; e o sétimo tom corresponde ao “som insonoro”: o silêncio.
Cada um dos quatro primeiros tons essenciais (ÿ, u, o, a) é associado a um  angá-mirim específico: raiz (terra), água, fogo e ar. O tom e é associado à “liberdade da alma”, enquanto o tom i favorece a intuição e liga o corpo ao sétimo tom (o silêncio). Além disso, cada tom possui sua “morada” em uma determinada uma região do corpo, começando pela base da coluna e ascendendo até o “fundo da cabeça”. Enquanto entoam em sequência os seis sons sagrados (mais o “som do silêncio”), os indígenas batem os pés no chão, praticando a chamada “afinação” do corpo com o Universo.
Desse modo, temos um bom exemplo de aproximação entre dança, música e religião, o que nos auxilia a compreender a visão integrada de mundo dos tupis. Essa antiga visão de mundo tem sido transmitida às novas gerações indígenas desde os ancestrais tupis (os Tubuguaçu) por meio de atividades culturais tradicionais.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Questões de método: Narrando a história dos primeiros brasileiros



O nosso sistema educacional vem, há anos, alimentando uma visão dos indígenas brasileiros pretensiosamente “tradicional” - quando, de fato, essa visão nada mais é que uma deturpação forjada pela “história oficial” e divulgada pelos sistemas midiáticos aos quais a população brasileira tem acesso.
            Inspirados nessa visão dita “tradicional” do índio, muitos vêem com maus olhos as tentativas de se reformular a nossa interpretação corrente da história indígena, ainda abarcada por conceitos eurocêntricos, alheios à realidade das etnias autóctones do nosso país. Muitos intelectuais brasileiros evitam contar a história dessas etnias partindo da própria visão de seus membros, padecendo de um verdadeiro “medo” de confrontar a visão tradicional que a população possui dos indígenas brasileiros.
            O “medo” de enfrentar a “tradição oficial” da visão do indígena como “selvagem”, além de desagregar aspectos interessantes da história das etnias indígenas, acaba por deixar de lado alguns fatos relevantes da sua história.
            Saltam aos olhos exemplos de fatos que requerem um estudo para além das fronteiras do indigenismo eurocêntrico, para enfim resultarem em histórias realmente interessantes:
            - a Estrada do Peabiru, que interligava o Império Inca com o litoral brasileiro, e foi utilizada (e, em parte, construída) pelos guaranis, quando da grande migração tupi-guarani, ocorrida pouco antes da chegada dos portugueses;
            - a migração dos tupis para o litoral brasileiro, que resultou no confronto com os gês e a formação do único grupo gê do litoral (os aimorés, ou botocudos); a chamada Grande Migração Tupi é importante inclusive para a história dos invasores europeus, que aproveitaram o clima de guerra e de desagregação social para exercerem seu domínio sobre as etnias de Pindorama (o litoral brasileiro);
            - a luta dos portugueses contra os tapajós, que formaram um grande exército, digno de enfrentar por vários anos os europeus até saírem derrotados.
            E muitas, muitas outras histórias...
            Outro elemento a ser analisado com uma visão mais “indiocêntrica” seria a religião dos indígenas. Cada etnia possui sua própria visão de mundo, bastante complexa, e que carece de uma abordagem antropológica mais coerente com sua mentalidade própria.
            A dificuldade em se escolher uma terminologia adequada é um grande empecilho para os antropólogos e etnólogos que estudam as religiões indígenas. O termo “animista” já foi bastante utilizado para descrever a religião indígena, mas caiu em desuso há décadas. Já o termo “xamanismo” é muito abrangente, se referindo a religiões de diversas regiões do planeta, o que acaba levando a uma visão eurocêntrica de realidades diversas.
Diante de tantas adversidades, exige-se dos cidadãos brasileiros uma certa descrença metódica em relação à história dos antigos brasileiros. A partir dessa descrença, podemos questionar a visão que possuímos do indígenas, buscando vê-los como verdadeiros personagens históricos, em vez de buscarmos encaixá-los em padrões que nos foram passados sem qualquer rigor histórico.