As etnias
indígenas brasileiras podem ser divididas, de acordo com conceitos
etnolinguísticos, em tupis, gês, caribes e aruaques. No Brasil atual, os
maiores grupos são o tupi e o gê.
A etnia tupi é
a mais estudada pelos primeiros cronistas europeus que vieram ao Brasil, mesmo
porque a maioria dos povos do litoral, com quem os europeus travavam contato,
eram tupis.
Atualmente,
escritores de origem indígena têm buscado relatar a visão que possuem da
própria história. Um desses escritores é Kaka Werá Jecupé, brasileiro da origem
tapuia (nome que os tupis davam aos gês). Em seus livros, Jecupé apresenta
conhecimentos obtidos após um longo processo de iniciação nas tradições
sacerdotais tupis-guaranis (um subgrupo da etnia tupi).
Partindo da
própria definição do que é “índio”, Jecupé expressa a importância do som e do
silêncio na cultura indígena:
(…) O nome índio veio trazido pelos ventos
dos mares do século XVI, mas o espírito “índio” habitava o Brasil antes mesmo
de o tempo existir e se estendeu pelas Américas. (…) Para o índio, toda palavra
possui espírito. Um nome é uma alma provida de assento, diz-se na língua ayvu
[língua preservada pela tradição oral, utilizada para se referir aos assuntos
da alma]. É uma vida entoada em uma forma. Vida é o espírito em movimento.
Espírito, para o índio, é silêncio e som. O silêncio-som possui um ritmo, um
tom, cujo corpo é a cor. Quando o espírito é entonado, torna-se, passa a ser,
ou seja, possui um tom.
(…) O índio mais antigo dessa terra hoje
chamada Brasil se autodenomina Tupy, que na língua sagrada, o abanhaenga,
significa tu = som, barulho; e py = pé, assento, ou seja, som-de-pé, o
som-assentado, o entonado. De modo que índio é uma qualidade de espírito posta
em harmonia de forma. (JECUPÉ, 1998, p. 13)
Desse modo, a
tradição tupi considera “silêncio” e “som” como dois elementos indissociáveis.
Por mais paradoxal que pareça ao raciocínio lógico, o conceito de
“silêncio-som”, ao conjugar duas palavras que consideramos antônimas, concorda
com estudos contemporâneos da musicologia e semiótica:
(…) Não há som sem pausa. O tímpano auditivo
entraria em espasmo. O som é presença e ausência, e está, por menos que isso
pareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quanto sons no som
(…). O mundo se apresenta suficientemente espaçado (quanto mais nos aproximamos
de suas texturas mínimas) para estar sempre vazado de vazios, e concreto de
sobra para nunca deixar de provocar barulho. (WISNIK, 2001, p. 18-19)
Jecupé
conceitua o ayvu como sendo a “sabedoria da alma” e o “corpo-som do Ser”. Por
deterem a “sabedoria da alma”, os Tubuguaçu (ancestrais dos tupis) seriam
capazes de “afinar” o corpo físico com a mente e o espírito.
Os Tubuguaçu
entendem o espírito como música, uma fala sagrada (nê-en-porã) que se
expressa no corpo; e este, por sua vez, é flauta (U'mbaú), veículo por onde
flui o canto que expressa o Avá (o ser-luz-som-música), que tem sua morada no
coração.
Essa flauta é feita da urdidura de quatro
angás-mirins (pequenas almas), que fazem parte dos quatro elementos: terra,
água, fogo e ar. Eles precisam estar afinados para melhor expressar o Avá, que
é a porção-luz que sustenta o corpo-ser, que, para os ancestrais, é o fogo
sagrado que move os guerreiros, dando-lhes vitalidade, capacidade criativa e
realizadora. (JECUPÉ, 1998, p. 24)
Jecupé explica
a importância do Jeroky (palavra que significa “dança”) como forma de realizar
a “afinação” do corpo com o Universo. Como o tupy é um “som-de-pé”, Jecupé
utiliza a expressão “dançar os tons” para referir-se à entoação dos sete tons
essenciais do espírito. Seis desses tons correspondem às vogais ÿ (“u” gutural), u, o, a, e,
i; e o sétimo tom corresponde ao “som
insonoro”: o silêncio.
Cada um dos quatro
primeiros tons essenciais (ÿ, u, o,
a) é associado a um angá-mirim específico: raiz (terra), água,
fogo e ar. O tom e é associado à
“liberdade da alma”, enquanto o tom i
favorece a intuição e liga o corpo ao sétimo tom (o silêncio). Além disso, cada
tom possui sua “morada” em uma determinada uma região do corpo, começando pela
base da coluna e ascendendo até o “fundo da cabeça”. Enquanto entoam em
sequência os seis sons sagrados (mais o “som do silêncio”), os indígenas batem
os pés no chão, praticando a chamada “afinação” do corpo com o Universo.
Desse modo,
temos um bom exemplo de aproximação entre dança, música e religião, o que nos
auxilia a compreender a visão integrada de mundo dos tupis. Essa antiga visão
de mundo tem sido transmitida às novas gerações indígenas desde os ancestrais
tupis (os Tubuguaçu) por meio de atividades culturais tradicionais.
Que maravilha!
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