O nosso sistema educacional vem, há anos, alimentando uma
visão dos indígenas brasileiros pretensiosamente “tradicional” - quando, de
fato, essa visão nada mais é que uma deturpação forjada pela “história oficial”
e divulgada pelos sistemas midiáticos aos quais a população brasileira tem
acesso.
Inspirados nessa visão dita
“tradicional” do índio, muitos vêem com maus olhos as tentativas de se reformular
a nossa interpretação corrente da história indígena, ainda abarcada por
conceitos eurocêntricos, alheios à realidade das etnias autóctones do nosso
país. Muitos intelectuais brasileiros evitam contar a história dessas etnias
partindo da própria visão de seus membros, padecendo de um verdadeiro “medo” de
confrontar a visão tradicional que a população possui dos indígenas
brasileiros.
O “medo” de enfrentar a “tradição
oficial” da visão do indígena como “selvagem”, além de desagregar aspectos
interessantes da história das etnias indígenas, acaba por deixar de lado alguns
fatos relevantes da sua história.
Saltam aos olhos exemplos de fatos
que requerem um estudo para além das fronteiras do indigenismo eurocêntrico,
para enfim resultarem em histórias realmente interessantes:
- a Estrada do Peabiru, que
interligava o Império Inca com o litoral brasileiro, e foi utilizada (e, em
parte, construída) pelos guaranis, quando da grande migração tupi-guarani,
ocorrida pouco antes da chegada dos portugueses;
- a migração dos tupis para o
litoral brasileiro, que resultou no confronto com os gês e a formação do único
grupo gê do litoral (os aimorés, ou botocudos); a chamada Grande Migração Tupi é
importante inclusive para a história dos invasores europeus, que aproveitaram o
clima de guerra e de desagregação social para exercerem seu domínio sobre as
etnias de Pindorama (o litoral brasileiro);
- a luta dos portugueses contra os
tapajós, que formaram um grande exército, digno de enfrentar por vários anos os
europeus até saírem derrotados.
E muitas, muitas outras histórias...
Outro elemento a ser analisado com
uma visão mais “indiocêntrica” seria a religião dos indígenas. Cada etnia
possui sua própria visão de mundo, bastante complexa, e que carece de uma
abordagem antropológica mais coerente com sua mentalidade própria.
A dificuldade em se escolher uma
terminologia adequada é um grande empecilho para os antropólogos e etnólogos
que estudam as religiões indígenas. O termo “animista” já foi bastante
utilizado para descrever a religião indígena, mas caiu em desuso há décadas. Já
o termo “xamanismo” é muito abrangente, se referindo a religiões de diversas
regiões do planeta, o que acaba levando a uma visão eurocêntrica de realidades
diversas.
Diante
de tantas adversidades, exige-se dos cidadãos
brasileiros uma certa descrença
metódica em relação à história dos antigos brasileiros.
A partir dessa descrença, podemos questionar
a visão que possuímos do indígenas, buscando vê-los como verdadeiros
personagens históricos, em vez de buscarmos encaixá-los em padrões que nos
foram passados sem qualquer rigor histórico.
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