segunda-feira, 18 de março de 2013

Tupy, o Som-de-Pé


  
As etnias indígenas brasileiras podem ser divididas, de acordo com conceitos etnolinguísticos, em tupis, gês, caribes e aruaques. No Brasil atual, os maiores grupos são o tupi e o gê.
A etnia tupi é a mais estudada pelos primeiros cronistas europeus que vieram ao Brasil, mesmo porque a maioria dos povos do litoral, com quem os europeus travavam contato, eram tupis.
Atualmente, escritores de origem indígena têm buscado relatar a visão que possuem da própria história. Um desses escritores é Kaka Werá Jecupé, brasileiro da origem tapuia (nome que os tupis davam aos gês). Em seus livros, Jecupé apresenta conhecimentos obtidos após um longo processo de iniciação nas tradições sacerdotais tupis-guaranis (um subgrupo da etnia tupi).
Partindo da própria definição do que é “índio”, Jecupé expressa a importância do som e do silêncio na cultura indígena:
(…) O nome índio veio trazido pelos ventos dos mares do século XVI, mas o espírito “índio” habitava o Brasil antes mesmo de o tempo existir e se estendeu pelas Américas. (…) Para o índio, toda palavra possui espírito. Um nome é uma alma provida de assento, diz-se na língua ayvu [língua preservada pela tradição oral, utilizada para se referir aos assuntos da alma]. É uma vida entoada em uma forma. Vida é o espírito em movimento. Espírito, para o índio, é silêncio e som. O silêncio-som possui um ritmo, um tom, cujo corpo é a cor. Quando o espírito é entonado, torna-se, passa a ser, ou seja, possui um tom.
(…) O índio mais antigo dessa terra hoje chamada Brasil se autodenomina Tupy, que na língua sagrada, o abanhaenga, significa tu = som, barulho; e py = pé, assento, ou seja, som-de-pé, o som-assentado, o entonado. De modo que índio é uma qualidade de espírito posta em harmonia de forma. (JECUPÉ, 1998, p. 13)
Desse modo, a tradição tupi considera “silêncio” e “som” como dois elementos indissociáveis. Por mais paradoxal que pareça ao raciocínio lógico, o conceito de “silêncio-som”, ao conjugar duas palavras que consideramos antônimas, concorda com estudos contemporâneos da musicologia e semiótica:
(…) Não há som sem pausa. O tímpano auditivo entraria em espasmo. O som é presença e ausência, e está, por menos que isso pareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quanto sons no som (…). O mundo se apresenta suficientemente espaçado (quanto mais nos aproximamos de suas texturas mínimas) para estar sempre vazado de vazios, e concreto de sobra para nunca deixar de provocar barulho. (WISNIK, 2001, p. 18-19)
Jecupé conceitua o ayvu como sendo a “sabedoria da alma” e o “corpo-som do Ser”. Por deterem a “sabedoria da alma”, os Tubuguaçu (ancestrais dos tupis) seriam capazes de “afinar” o corpo físico com a mente e o espírito.
Os Tubuguaçu  entendem o espírito como música, uma fala sagrada (nê-en-porã) que se expressa no corpo; e este, por sua vez, é flauta (U'mbaú), veículo por onde flui o canto que expressa o Avá (o ser-luz-som-música), que tem sua morada no coração.
Essa flauta é feita da urdidura de quatro angás-mirins (pequenas almas), que fazem parte dos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Eles precisam estar afinados para melhor expressar o Avá, que é a porção-luz que sustenta o corpo-ser, que, para os ancestrais, é o fogo sagrado que move os guerreiros, dando-lhes vitalidade, capacidade criativa e realizadora. (JECUPÉ, 1998, p. 24)
Jecupé explica a importância do Jeroky (palavra que significa “dança”) como forma de realizar a “afinação” do corpo com o Universo. Como o tupy é um “som-de-pé”, Jecupé utiliza a expressão “dançar os tons” para referir-se à entoação dos sete tons essenciais do espírito. Seis desses tons correspondem às vogais ÿ (“u” gutural), u, o, a, e, i; e o sétimo tom corresponde ao “som insonoro”: o silêncio.
Cada um dos quatro primeiros tons essenciais (ÿ, u, o, a) é associado a um  angá-mirim específico: raiz (terra), água, fogo e ar. O tom e é associado à “liberdade da alma”, enquanto o tom i favorece a intuição e liga o corpo ao sétimo tom (o silêncio). Além disso, cada tom possui sua “morada” em uma determinada uma região do corpo, começando pela base da coluna e ascendendo até o “fundo da cabeça”. Enquanto entoam em sequência os seis sons sagrados (mais o “som do silêncio”), os indígenas batem os pés no chão, praticando a chamada “afinação” do corpo com o Universo.
Desse modo, temos um bom exemplo de aproximação entre dança, música e religião, o que nos auxilia a compreender a visão integrada de mundo dos tupis. Essa antiga visão de mundo tem sido transmitida às novas gerações indígenas desde os ancestrais tupis (os Tubuguaçu) por meio de atividades culturais tradicionais.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Questões de método: Narrando a história dos primeiros brasileiros



O nosso sistema educacional vem, há anos, alimentando uma visão dos indígenas brasileiros pretensiosamente “tradicional” - quando, de fato, essa visão nada mais é que uma deturpação forjada pela “história oficial” e divulgada pelos sistemas midiáticos aos quais a população brasileira tem acesso.
            Inspirados nessa visão dita “tradicional” do índio, muitos vêem com maus olhos as tentativas de se reformular a nossa interpretação corrente da história indígena, ainda abarcada por conceitos eurocêntricos, alheios à realidade das etnias autóctones do nosso país. Muitos intelectuais brasileiros evitam contar a história dessas etnias partindo da própria visão de seus membros, padecendo de um verdadeiro “medo” de confrontar a visão tradicional que a população possui dos indígenas brasileiros.
            O “medo” de enfrentar a “tradição oficial” da visão do indígena como “selvagem”, além de desagregar aspectos interessantes da história das etnias indígenas, acaba por deixar de lado alguns fatos relevantes da sua história.
            Saltam aos olhos exemplos de fatos que requerem um estudo para além das fronteiras do indigenismo eurocêntrico, para enfim resultarem em histórias realmente interessantes:
            - a Estrada do Peabiru, que interligava o Império Inca com o litoral brasileiro, e foi utilizada (e, em parte, construída) pelos guaranis, quando da grande migração tupi-guarani, ocorrida pouco antes da chegada dos portugueses;
            - a migração dos tupis para o litoral brasileiro, que resultou no confronto com os gês e a formação do único grupo gê do litoral (os aimorés, ou botocudos); a chamada Grande Migração Tupi é importante inclusive para a história dos invasores europeus, que aproveitaram o clima de guerra e de desagregação social para exercerem seu domínio sobre as etnias de Pindorama (o litoral brasileiro);
            - a luta dos portugueses contra os tapajós, que formaram um grande exército, digno de enfrentar por vários anos os europeus até saírem derrotados.
            E muitas, muitas outras histórias...
            Outro elemento a ser analisado com uma visão mais “indiocêntrica” seria a religião dos indígenas. Cada etnia possui sua própria visão de mundo, bastante complexa, e que carece de uma abordagem antropológica mais coerente com sua mentalidade própria.
            A dificuldade em se escolher uma terminologia adequada é um grande empecilho para os antropólogos e etnólogos que estudam as religiões indígenas. O termo “animista” já foi bastante utilizado para descrever a religião indígena, mas caiu em desuso há décadas. Já o termo “xamanismo” é muito abrangente, se referindo a religiões de diversas regiões do planeta, o que acaba levando a uma visão eurocêntrica de realidades diversas.
Diante de tantas adversidades, exige-se dos cidadãos brasileiros uma certa descrença metódica em relação à história dos antigos brasileiros. A partir dessa descrença, podemos questionar a visão que possuímos do indígenas, buscando vê-los como verdadeiros personagens históricos, em vez de buscarmos encaixá-los em padrões que nos foram passados sem qualquer rigor histórico.